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24 Mai 2019

Conversa de Críticos
Conversas de Crítico

Conversa de Críticos 

Quem tem medo de festivais de cinema por cá?!

Há fartura de festivais de cinema em Portugal ? Se sim acreditam que estão a tirar público às salas que apostam em cinema de arte e ensaio ?

Hugo Gomes – Acredito que existe uma quantidade enorme de festivais em Lisboa e isso tem contribuído para um afunilamento cultural, deixando outras comunidades desprovidas deste mesmo Cinema. Nisso, tenho refletido verdadeiramente, de forma a apoiar tudo que é organizado fora da capital. Agora, quanto à retirada de público destes mesmos filmes … sim, acredito, mesmo ser da opinião que muito deste público não iria ver tais propostas fora do espirito festivaleiro. Aliás, ver um filme num festival é evento e vê-lo no circuito comercial é somente “ir ao cinema”, termo que socialmente tem sido vulgarizado pelos demais, tendo em conta muita da mentalidade do espectador de Festival. Mas quanto à demasia e à extração de público, afirmo, salientado, que paralelamente existem antestreias a mais, isso sim, é uma fatia enorme de espectadores.

Inês Lourenço – Há uma concentração de Festivais de cinema em Lisboa, isso parece-me uma evidência – mais do que a ideia de que há muitos Festivais em Portugal. E a questão delicada é que são muito próximos uns dos outros. Eu acho que é uma maravilha que eles existam, ainda mais pela sua diversidade, mas devia haver alguma respiração entre uns e outros. Agora se tiram espectadores a essas salas já é outra conversa. Diria que as pessoas interessadas em ver determinados filmes independentes tendem a fazê-lo nessa atmosfera de “novidades” do Festival. Em consequência, não resta muito público.

Paulo Portugal – Vou tentar dizer alguma coisa mais arrevesada. Os festivais de cinema são uma oportunidade de criar eventos-cinema fora do circuito comercial. A meu ver acabam por colher até mais expressão. Por isso mesmo ‘comem’ parte dessa fatia tão magra do ‘art house’. Só que isso não pode ser problema. Acho mesmo que cria novos públicos, aqueles que vão pelo evento e que podem até ser seduzidos a procurar algo mais numa salinha perto de si. Mais: acho que podem até existir mais opções de programação alternativa. Acho mesmo que o cinema pode acontecer de uma forma que nem sequer passe por salas de cinema. Lembro-me, por exemplo, de assistir a um serão de cinema ao ar livre, com uma sessão de ‘Casablanca’ no relvado de Brooklyn, mesmo ao lado do rio Hudson e com a ponte em jeito de cenário. Foi fantástico ver toda a gente com mantas e piquenique para ver o filme. Famílias inteiras. O problema das salas art house é que existe uma enorme poluição à volta de um cinema que não desperta emoções, que as deixa algo desamparadas. Ainda assim, valha-nos o Ideal, o Nimas e…

Rui Pedro Tendinha – O Trindade não!?

Paulo Portugal – Pois, o Trindade. E…

Rui Pedro Tendinha – E o UCI que mistura e mistura bem?

Paulo Portugal – Não é art house

Hugo Gomes – Longe de mim retirar o mérito dos festivais, só que a minha preocupação são demasiados em Lisboa. E assim, da mesma maneira com a questão das salas de cinema, sinto que o resto país está despido, quase negligenciado a esses eventos e a esse Cinema alternativo.

Inês Lourenço – Sim, e muitas vezes os festivais fora do centro nem sequer têm a devida divulgação. O mesmo se pode aplicar à comunicação de alguns filmes “art house”, que sendo tão ténue nem se dá pela sua chegada às salas (perdendo o alcance para lá dos espectadores que já os viram nos festivais).

Hugo Gomes – Se fosse do art house, diria que tudo fora de Hollywood (e mesmo assim há seleção) sofre do mesmo mal. Mas penso que o circuito comercial é outro debate…

Paulo Portugal – Não vale a pena sermos ingénuos. O espectador curioso e cinéfilo é informado e vê o que quer e gosta. Seja em festivais, em sala ou em casa. O problema é que a oferta de cinema é massificada e o cinema de autor é apenas uma margem pequena. Algo que os festivais promovem e as salas que existem e os cineclubes. O problema é que também não existe espaço de divulgação suficiente. Seja em papel ou digital. Acho que tem de se fazer (e pode fazer) mais e melhor. Mais festivais, porque não?, mais salas de cinema de bairro (vejamos se é um negócio seguro – o Ideal luta para existir) e até eventos espontâneos. Claro que temos o problema da regionalização da cultura em que está muito ainda por fazer. Mas acho que este pode até ser um momento bom para termos mais e melhor.

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