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27 Set 2020

Pedro Paixão | Pré-publicação: o Jornalista de Cinema
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Pedro Paixão | Pré-publicação: o Jornalista de Cinema 

Já teve duas namoradas. Conheceu a primeira na cinemateca. A tomar café antes da sessão. Ambos desconheciam o filme que estava programado. Foi o que se perguntaram simultaneamente um ao outro, e sorriram. Até parece mentira, coisa de filmes, certamente mais uma inconsistência no enredo. Pouco a pouco ele foi-se apercebendo que ela amava mais o conde Visconti do que o amava a ele. Não só Visconti, mas o Roberto Rosselini e o Akira Kurosawa o que lhe causava estranhos, mas dolo- rosos, ciúmes. Nunca serei nenhum deles, uma enorme injustiça, e ela nunca me amará. Com a segunda namorada, uma rapariga negra muito bonita, via e revia muitos filmes deitado com ela sobre a cama. Ele parava o filme e dizia-lhe: Repara naquele candeeiro aceso lá ao fundo para dar profundidade ao plano. Ela queixava-se: Nunca podemos ver um filme de seguida? Por vezes faziam amor sem desligar o laptop. Ter prazer a ouvir tiros de espingardas e cavalos a relinchar.

Pedro Paixão

Pedro Paixão

A história do cinema é quase sempre mal contada, pelo menos omitidas as partes menos cinematográficas. Esquece-se que ela é também uma série infinda de gritos de amor e desespero, drogas pesadas, suicídios rápidos e outros mais lentos, cemitério de amores fugazes, todo o tipo de violências. É que depois de se viver para além do que se estava destinado abre-se um aterrador vazio à nossa frente. O cinema é, sobretudo, feito com as amargas lágrimas dos actores tragicamente encenados.

Pedro Paixão

 

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