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10 Mai 2021

O texto do belíssimo novo de Eduardo Brito
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O texto do belíssimo novo de Eduardo Brito 

Texto da narração de Ursula, curta-metragem de Eduardo Brito que encantou o Curtas Vila do Conde

 

A 12 de outubro de 2019, o Senhor Edwin F., de 86 anos, sonhou pela primeira vez na sua vida que era uma mulher. Uma mulher numa cidade algures no Círculo Polar Árctico, às 14 horas de um dia de Janeiro, sob uma temperatura de menos vinte e um graus centígrados, interrogando-se, num movimento lento antes de ser tomada pelo frio, se ali, onde este, oeste e norte convergem, o céu seria preto ou ainda azul e em que dia e hora certa o sol nasceria pela primeira vez após a longa noite polar.
Exactamente dezasseis minutos mais tarde no mesmo sonho, o Senhor Edwin repetia um movimento semelhante, agora num lugar a sul, sob a luz de uma manhã nevoenta e uma temperatura amena, tentando compreender quanto tempo teria passado desde a sua estadia a norte e antevendo a grande dificuldade que iria ter em explicar à sua família o sucedido.
Perguntou-se também que sítio seria aquele, mas rapidamente compreendeu que essa era uma questão sem importância, já que a lógica onírica lhe abria, entre outras, a possibilidade de ambos os espaços serem o mesmo lugar, antes ou depois de um qualquer cataclismo ou decurso do tempo. Se assim fosse, Edwin não tinha saído do sítio, apenas mudado de camisola.
Pensou se teria ultrapassado o tempo ou a morte, se o deserto de gelo era afinal de areia ou eterno. Lembrou então um poema onde as palavras noite oito, night eight, otto notte, nuit huit, åtte natt, oscilam como o pêndulo de um relógio em versos sobre a sua semelhança em grande parte das línguas de origem indo-europeia. Sentiu que se entendesse o porquê disto decifraria qualquer coisa inominável, mas como sempre, a epifania não chegou.

Parou por fim de questionar o sonho, aceitando sem reservas o consolo que este lhe propunha.

Mais tarde, Edwin apercebeu-se de que se chamava Úrsula e que era de novo Janeiro no Árctico, mas já não o mesmo dia que no início.

Antes de acordar, Úrsula sonhou ainda que o seu corpo deitado na neve era por fim uma montanha.

 

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