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22 Set 2020

Entrevista a Rosa Coutinho Cabral
Entrevistas

Entrevista a Rosa Coutinho Cabral 

“Revejo-me num  trabalho solitário, duro e de resistência”
 

A intimidade de um casal nos Açores. Ela chega mas pode partir, ele está lá e pode ficar. Há um trauma pelo meio mas nada há para explicar. Uma história de amor precipitada pela tragédia. Rosa Coutinho Cabral, com o dinheiro para uma curta, assina a surpresa desta temporada. Chama-se Coração Negro e já tardava em estrear…

 

Há muita gente que perdeu o rasto do teu cinema. Este filme é uma espécie de grito “estou aqui, olhem para o meu cinema”?

Sim . Sem dúvida. Esta é a minha guerra. Eu acredito no cinema que faço. E é o que gosto e sei fazer. E quero que ganhe visibilidade. É justo que ganhe. Há na ordem estrita da criatividade uma possibilidade de ser novo. E, apesar de ser “entrada na idade”, é o que sinto. E sinto também que as minhas convicções, o meu isolamento, a minha solidão, me permitem construir uma linguagem particular. Neste caso nova. Por isso sim, acho que é tempo de olharem para o meu cinema.

 

De onde vem essa infinita tristeza deste tema?

A tristeza vem da vida e vem do mundo. O sofrimento é uma condição da vida. Uma experiência que se prende ao corpo e à pele de quem habita o mundo. Os momentos luminosos não ofuscam a escuridão. Nem sossegam o vazio que a condição humana tem de experimentar cada  dia que passa. Não porque pertença ao sujeito, mas porque existe numa intensidade particular que reclama pela sua revelação. Este desvelamento é político pela forma como é mostrado pelas personagens. Na encenação particular das dores e tristezas.  Há uma condição política no sofrimento que transcende o sujeito e se funde no pranto dos outros. Na tal dor do mundo. O que me interessa neste salto que chispa no filme, é a dor como motor da acção – ou o seu retraimento, fechamento, esvaziamento. Há uma infinita tristeza que vem da perda e do luto – e, à sua maneira, todos a sentimos. Podia dizer que este filme foi uma forma de encenar o luto antecipado de uma relação.

 

 

Foste contaminada pela paisagem do Pico ou tudo estava já planificado, plano a plano?

Este projecto nasceu de um conto que escrevi que se centra num determinado  momento da vida de um casal. É passado na ilha do Pico, que conheço muito bem. Desde o primeiro momento que a natureza naturans e a natureza humana deram forma uma à outra no conto. E esta condição da escrita passou para o filme. Para mim sempre foi claro que  violência geológica da ilha vulcânica, e a relação moribunda entre aquele  homem e aquela mulher  tinham a mesma linguagem. Linguagem que o filme reclama. Só precisei de encontrar na minha memória os lugares que se destinavam a esta metamorfose. Não foi um processo racional como uma planificação tradicional.  Foi antes uma rememoração que me  levou ao reencontro de sítios e lugares que continham os mesmos sentimentos, violência, vazios das personagens. Reverberação e constelação emocional, mas não melodramática. Importava ser muito rigorosa no entendimento do que os lugares retiravam ou acrescentavam à situação vivida por aquele casal. Não era preciso mostrar tudo. Queria que a presença vulcânica e telúrica emprestasse ao filme o seu carácter violento e explosivo, mas também invisível. O que não se vê é sentido, consciência que divide o casal desde o princípio. O que se vê fica, no plano da imagem, dominado pela paleta açoriana, que adoro: azul, verde e negro, inundando por constantes neblinas.

 

 O teu nome não costuma estar associado a lobbies do cinema português. Vês-te a ti

própria como uma resistente?

Parece-me que sim. Para mim, voltando ao meu carácter solitário como cineasta, a resistência aos outros, e àqueles que me excluem, é fundamental. É também uma reivindicação política.  A situação do cinema português, e da cultura em geral, de resto, é indecente. Sinto-me directamente lesada por ela. Os concursos do ICA têm de ser revistos e reorganizados. Tem de haver muito mais dinheiro para o cinema. E de uma vez por todas uma separação entre cultura e indústria. Realizadores a concorrer com produtores? Filmes apoiados, sem política de sustentabilidade para a sua carreira? Não haver um  ( parece que vai haver um…) ou mais cinemas que exibam só cinema português? Estas e muitas outras questões dariam para muito mais… Mas voltando ao cerne da pergunta: sim vejo-me como uma resistente, porque o que me interessa é um cinema que se disponha à invenção da linguagem e não à repetição de paradigmas tradicionais e comerciais. Para mim o cinema não é entretenimento. É o exercício puro da liberdade. Como a poesia, é uma forma de filosofar, se quisermos. É uma forma de dar visibilidade a formas invisíveis de ver o mundo, do mundo, das pessoas. É uma forma de defender o que é perseguido. É um abismo estético, ético e político. É aí, neste trabalho solitário, duro e de resistência, que me revejo.

 

 

Senti que uma das qualidades do filme é a sua precisão e despojamento. Não há palavras a mais, música a mais…

 

À medida que filmava, fui levada por uma  poeisis que vem de um outro tempo ( da origem das ilhas e das pessoas) e que sabia que ia sendo escrito no filme. E como o fazemos? Filmando planos. Para mim, fazer um plano é muito importante. Não se trata de planificar uma découpage. Trata-se de enquadrar o mundo onde aquelas pessoas-personagens nos guiam, como se estivessem a escrever o argumento. Acreditei que a densidade afectiva daquela ligação, decantava a forma de fazer o filme. Como se ouvindo as suas vozes, as palavras que quase não dizem, aquilo que nunca sabemos que lhes aconteceu e encontrasse a forma certa  de filmar a experiência vivida por aquele casal. Os actores, aceitaram o desafio de uma quase-representação, improvisação, dando mais do que seria previsível eu receber – porque trabalharam a construção do sofrimento e da dor que anima o filme de uma forma sublime. Na construção de cada cena, normalmente constituída por um só plano, o rigor dramatúrgico era essencial. A avareza de meios de representação, poder-se-ia dizer, o foco nas ínfimas intimidades, ínfimos desapegos, pequenas empatias ou grandes crueldades. A luz, como uma arquitectura subtil, natural ou construída, nunca foi demais. Não podia. Tinha de ser à justa. E o som também. Muitas vezes como um sussurro. E a música, que sai do filme, faz parte do filme e não actua  decorativamente. Nada de mais e ostinato rigore foi a agenda secreta que todos partilhamos ao fazer este filme. Por isso sim, como disseste, é um filme comedido. E por vezes, como no fim do filme, excessivo.

O filme foi-se construindo na rodagem, e entre rodagem, porque voltamos ao Pico cinco vezes para filmar. A cena final, a que chamo o teatro-da-palavra, é uma invectivação à relação daquele casal, daquele homem e daquela mulher sem nomes próprios,  ao espectador e ao próprio filme. E não estava escrita no conto inicial. Foi o filme que a pediu. A cena pode ter várias leituras, mas o que me divertiu mais ao fazê-la, foi criar um dispositivo cinematográfico de passagem entre a vida e a morte. E assim aquele homem e aquela mulher falam entre dois mundos, dois tempos, graças ao cinema e as suas máquinas.

Esta precisão e despojamento de que falas,  despoleta no espectador uma relação muito singular com o cinema: conviver com a  durée de cada plano; ver e ouvir com paciente atenção, inaugurando um  prazer cinematográfico distinto do que se usufrui com o cinema comercial. É este o gesto político cinematográfico deste filme.

 

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